Colaboradores recebem os “teiús” ao entregar itens, como brinquedos e comprovantes de doação de sangue, e podem trocar por produtos da horta criada nas dependências do centro

 

Imagine praticar uma atividade física como academia ou abastecer o seu veículo próprio com etanol e, com um comprovante em mãos, trocá-lo por verduras e legumes produzidos de forma natural. É o que acontece na prática para 835 dos 1,1 mil pesquisadores, funcionários e estagiários do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), localizado em Campinas, na região do Distrito de Barão Geraldo. Eles são recompensados por adotar práticas saudáveis e sustentáveis com unidades de uma moeda social chamada “teiú”, o que possibilita uma permuta por itens produzidos em uma horta criada nas dependências do centro de pesquisa e cuidada pelos próprios colaboradores.

A iniciativa foi a primeira e é uma das que mais se destacou no Projeto Seriema, sigla para Soluções Estratégicas de Responsabilidade, Interação, Educação e Meio Ambiente. Ele foi criado pelos funcionários do CNPEM em novembro do ano passado a partir da necessidade de implementar ações de sustentabilidade no local, em um esforço para integrar práticas ecológicas ao cotidiano do centro. Inspirado pela Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), o projeto busca contribuir com nove Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como fome zero, saúde e bem-estar, água potável, energia limpa e ação contra a mudança climática. A iniciativa também enfatiza a importância de uma economia circular, incentivando a redução de resíduos e do impacto ambiental.

Entre as outras áreas de atuação do Seriema estão a compostagem, que processa 150 toneladas de resíduos orgânicos por ano, incluindo a borra de café e a criação e manejo de abelhas para a polinização e preservação ambiental.

Os organizadores do projeto afirmaram que o Seriema não se limita à sustentabilidade ambiental, mas também promove a educação e a conscientização sobre práticas sustentáveis no ambiente de trabalho. A equipe do projeto organiza ecopontos para coleta de materiais recicláveis, gerencia trocas de teiús e realiza campanhas educativas para incentivar a participação ativa dos colaboradores. Com essas iniciativas, o programa busca criar uma cultura de responsabilidade socioambiental dentro do CNPEM, engajando todos os funcionários em ações que beneficiam tanto o meio ambiente quanto a comunidade local.

 

ORIGEM

Uma das responsáveis pelo projeto é a analista de sustentabilidade, bacharel em Ciências Biológicas e pósgraduada em Gestão Ambiental, Beatriz Herrera Poltronieri. Atualmente ela coordena o programa e enfatizou a necessidade que gerou a ideia principal do Seriema: a moeda “teiú”, com os dois nomes batizados como homenagens aos animais que vivem em bandos no interior do CNPEM.

“O programa foi estruturado e inaugurado oficialmente em novembro, mas começamos com a horta em agosto de 2023. A ideia do projeto era trazer mais essa questão ambiental para o CNPEM. Começamos a debater ideias, como fazer uma horta dentro do centro, e outras surgiram depois, por exemplo falar com os colaboradores para eles plantarem, ter essa conexão maior com a natureza. Quando a horta ficou pronta, surgiu a questão de como iríamos distribuir as hortaliças para as pessoas daqui. Qual vai ser o critério? Todo mundo vai poder pegar? Vai ser uma troca? Peguei o exemplo de uma cidade do Nordeste que aplicou o conceito de moeda social e deu certo por aqui. Uma coisa gerou a outra e conseguimos aproveitar para gerar atitudes sustentáveis e ambientalmente corretas”, discorreu.

Moedas sociais são alternativas à moeda oficial da região. No caso do Brasil, alternativas ao real. Essas moedas diferentes são utilizadas por um certo grupo, para transações econômicas com o objetivo de gerar riqueza em uma determinada comunidade.

Ainda segundo Beatriz Herrera Poltronieri, os colaboradores do CNPEM “compraram” a proposta com base nas bonificações recebidas via teiús. “Recebemos um material que iria para o lixo, então ele poderá ser doado e ganhar um novo significado. Conseguimos gerar uma ação sustentável por trás disso. As pessoas participantes se sentem parte do programa. Quando alguém entrega uma tampinha e ganha esse teiú em troca, essa pessoa sente que foi recompensada por uma ação que ela fez. Os resultados práticos estão sendo incríveis. Importante ressaltar que nos baseamos no real para precificar os produtos trocados pelos teiús. Se uma unidade de alface custa R$ 5, colocamos um valor de 5 teiús. Pensamos o mesmo raciocínio para as unidades de teiús entregues aos colaboradores do CNPEM por cada ação sustentável realizada. Dependendo do porte, pode ser 1 teiú, 2, 5 etc.”

 

ARRECADAÇÃO

Os responsáveis pelo programa informaram ainda que em um ano foram arrecadadas mais de 228 mil tampinhas plásticas de garrafas, mais de 210 mil lacres de latas de bebidas, mais de 9,6 mil peças de roupas, 145 litros de óleo de cozinha, 254 quilos de matéria orgânica, mais de 1,5 mil aparelhos eletrônicos, mais de 1,2 mil esponjas de cozinhas e 935 esponjas vegetais. Também foram trocados por teiús mais de 8,4 mil notas fiscais de mais de 50 mil embalagens de medicamentos usadas especificamente para armazenar uma variedade de produtos de pequeno porte.

Em julho deste ano foram aceitos novos itens nas trocas pelos teiús: comprovantes de doação de sangue (58 recebidos), brinquedos (156 recebidos), comprovantes de abastecimento de veículos com etanol (150 recebidos) e comprovantes da realização de atividades físicas (180 recebidos). Nesse último caso, cópias de treinos realizados com marcação de datas e horários feitos por meio de aplicativos de academias são aceitos.

Os responsáveis pelo Seriema explicaram que itens como os brinquedos, roupas, lacres e tampas são doados para entidades parceiras, como uma igreja que vende as vestimentas e direciona os lucros para crianças carentes do exterior, ou para uma empresa que comercializa lacres para trocar por cadeiras de rodas e entregálas para entidades assistenciais, por exemplo.

Considerando todo o período de existência do programa, foram entregues aos colaboradores mais de 3,6 mil kits horta (cada um deles contendo três unidades do que é produzido no local, podendo ser uma alface, uma berinjela e um jiló, entre outras possibilidades). Também foram repassados aos colaboradores do CNPEM, na troca por teiús, mais de 1,6 mil quilos de adubo feitos com compostagem, 231 mudas de plantas de frutas, verduras e legumes produzidas no espaço do projeto, além de 7.990 números de itens sorteados mensalmente pela coordenação do Projeto Seriema. Já foram economizadas 150 toneladas de matéria orgânica destinada a compostagem.

O material deixou de ir para aterros sanitários e foi aproveitado na horta, além de parte que é trocado por teiús de colaboradores. O investimento para adquirir copos plásticos consumidos dentro do CNPEM era de R$ 30 mil por mês, em média. Esse valor caiu para R$ 2 mil.

 

TROCAS

O assistente de sustentabilidade Talles Nikson Carlos de Abreu é coordenador da horta do programa. Assim como a coordenadora do projeto, Beatriz Herrera Poltronieri, ele atua em todas as áreas de sustentabilidade dentro do CNPEM, além do Seriema: gestão de resíduos, controle de indicadores, podas e supressões de árvores etc. Ele explicou à reportagem como funcionam as trocas realizadas na horta. Às segundas e terças-feiras são feitos os recebimentos dos materiais a serem trocados pelos colaboradores e o apontamento do que desejam da horta. Na sequência, às quintas e sextas-feiras, são efetivadas as trocas dos teiús pelos itens da horta.

No começo do projeto eram usadas unidades físicas, como as notas de real. Atualmente existe um aplicativo que automatizou boa parte desse processo. “Percebemos uma certa resistência no começo do projeto em alguns casos. Começamos a recompensar os colaboradores que deixaram de usar os copos plásticos descartáveis e passaram a usar canecas. Algumas pessoas não se acostumaram tão fácil a dispensar o uso de copos que estavam à disposição em abundância, mas entendo que a maior parte dos colaboradores abraçou o nosso projeto”, avaliou.

Atualmente estão plantadas na horta 15 tipos de verduras, legumes e Plantas Alimentícias Não Convencionais (Plancs). São elas: alface crespa, alface americana, alface mimosa, alface de azeite, chicória, almeirão pão de açúcar, alho-poró, salsinha, cebolinha, coentro, rabanete, rúcula, taioba, jiló e berinjela.

Ainda de acordo com o coordenador da horta do Projeto Seriema, Talles Nikson Carlos de Abreu, a proposta no futuro é expandir a iniciativa para que os colaboradores do CNPEM possam usar os teiús para adquirir itens sustentáveis de locais de fora do centro de pesquisa. “A cada mês que passa temos a participação de mais funcionários, estagiários e pesquisadores. Ficamos felizes e satisfeitos com a evolução desse projeto.”

 

Fonte: Correio Popular.

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