O veneno na mesa do brasileiros. Uma análise inicial sobre os desafios da alimentação orgânica

Por Sammer Siman

O Brasil é o maior consumidor de veneno do mundo. Em média, o brasileiro consome 7 litros de veneno por ano. Esse comércio movimenta mais de 2 bilhões de dólares ao ano e também causa mais de 70 mil intoxicações agudas e crônicas, segundo dados da Associação brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

De outra parte, o Brasil aparece como o segundo maior produtor de alimentos orgânicos do mundo, numa produção que vem crescendo a 20% ao ano e que movimenta pelo menos 3 bilhões de reaisi. No entanto, 75% da produção nacional se destina para a exportaçãoii (destacadamente para Estados Unidos, Japão e União Europeia), evidenciando que o caráter exportador do país se manifesta também neste mercado de orgânicos.

Numa análise inicial que nos propusemos nesta primeira contribuição ao Olhar de Classe identificamos o perfil básico dos consumidores de orgânicos no Brasil. Segundo pesquisa realizada no ano de 2017 (ver nota 1) foi possível constatar que a maior parte dos consumidores se concentram nas cidades (15% da população urbana são consumidores de produtos orgânicos) e a maior parte dos consumidores se encontram na região sul (que consomem o dobro de produtos orgânicos do que a média nacional).

Em outro estudo (ver nota 2) foi possível constatar que a maioria dos consumidores são mulheres, possuem ensino superior e um maior nível de renda (o maior perfil de consumidores identificados no estudo está presente em rendas familiares de 4 a 8 salários mínimos). Os produtos mais consumidos são verduras, legumes e frutas.

A maior parte das compras se dão em supermercados (65%) e a outra parte mais significativa em feiras (25%). A principal motivação dos consumidores está na preocupação com a saúde e o meio ambiente, no incentivo aos pequenos produtores e a agricultura familiar (que são responsáveis por 70% da produção de orgânicos no país) e no paladar proporcionado pelos alimentos orgânicos.

Ainda que nos pareça faltar uma pesquisa mais ampla e detalhada a respeito do consumo de orgânicos no Brasil os dados acima nos permite algumas constatações importantes: No Brasil o consumo de orgânico ainda é restrito, encontra barreiras na baixa informação para a população, além dos produtores encontrarem fortes dificuldades, especialmente no que tange ao apoio do poder público à produção e comercialização, aspectos que pretendemos desenvolver mais nos próximos textos.

Fato é que o veneno ainda predomina na mesa dos brasileiros. E o mais grave, é que no que depender do Congresso Nacional estará ainda mais presente, especialmente no que tange a aprovação do PL do veneno (PL 6299/2002), que está pronto para ser votado na câmara dos deputados (ver aqui).

É preciso ampliar de maneira contundente as iniciativas em favor da alimentação saudável para todo o povo brasileiro. O portal Olhar de Classe tem incentivado várias delas, a exemplo da divulgação do PL que institui a Política Nacional de Redução dos Agrotóxicos (ver aqui), a Rede Livres – Produtos do Bem (ver aqui) e outras iniciativas dos trabalhadores. Mais do que nunca, alimentar bem se torna um ato de resistência e re-existência.

iVer aqui matéria sobre a pesquisa realizada pela Organis Brasil com dados presentes no texto. Ver aqui pesquisa completa

iiVer aqui estudo de Souza e Filho (2017) com estes e outros dados presentes no decorrer do presente texto.

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