Há exatamente 3 anos rompia a barragem de Fundão na cidade de Mariana, configurando o Crime da Samarco, o maior crime ambiental já cometido no país. Passaram-se 3 anos e o que vemos é o reino da impunidade, da ausência de reparação e da injustiça com os atingidos.
O Olhar de Classe reproduz a nota das Brigadas Populares (ver original aqui) que reflete o atual estado de injustiça deste crime que deixou fortes marcas no Brasil. Nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de luta!
NENHUM MINUTO DE SILÊNCIO, MAS UMA VIDA INTEIRA DE LUTA!
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Hoje, 05 de novembro de 2018, completa-se 3 anos do crime do Rompimento da Barragem de Fundão da Samarco, que despejando 34 milhões de m³ de rejeitos na bacia do rio Doce, produziu um caminho de morte e destruição incalculável, embora passível de punições, reparações e compensações. O maior desastre socioambiental já registrado no Brasil causou de imediato 19 mortes e perdas ainda pouco compreendidas em termos de biodiversidade, potencialidades ecológicas e histórias sociais, culturais e econômicas. A lama que ainda se impõe ao longo da bacia do rio Doce se perpetua em correspondência às violações dos direitos humanos e ambientais dos municípios, grupos sociais, povos e comunidades atingidas. O crime da Samarco não se limita ao dia 05 de novembro de 2015, mas se reproduz cotidianamente nas práticas de negociação de direitos, violência simbólica, invisibilização, fragilização sistemática, perseguição e manipulação cometidas pelas empresas e governos envolvidos.
A criação da Fundação Renova (Samarco, Vale e BHP Billiton) em 2016, a partir de um grande e perverso acordo que envolveu os governos Federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, compreende o “pecado original” do doloroso e sofrido processo de reparação. Ao atribuir às rés o dever de elaboração e execução das reconstruções e compensações aos atingidos, o “Acordão” que fez surgir a fundação criou as condições necessárias para que as empresas mantivessem o controle sobre o processo de reparação, desvirtuando-o para o atendimento dos seus interesses produtivos e publicitários. Num processo extremamente viciado dos seus propósitos iniciais, os atingidos se viram a mercê de uma instituição que os veem como adversários e preocupa-se sobretudo em legitimar e criar as condições para a retomada da operação da Samarco. Os seus direitos passaram a ser negociados e as medidas de reparação tornaram-se peças de publicidade.
A destruição provocada pelo crime da Samarco, crime ambiental sem precedentes na história do Brasil, nos obriga a uma profunda reflexão sobre o destino de Minas Gerais e todas as demais “zonas de sacrifício” onde imperam os projetos minerários no país. Voltado ao atendimento de necessidades alheias ao das maiorias do país, o extrativismo mineral se reproduz no país sob a marca da devastação ambiental e violação dos direitos humanos das populações atingidas. Além das práticas de violências imediatas e cotidianas, nas áreas de mineração as pessoas são obrigadas a conviver com os riscos iminentes representados pelas Barragens de Rejeitos, prestes a romperem sob suas cabeças, casas, vidas e comunidades.
Todo esse controle territorial pelas mineradoras é um retrato de um país que ao longo de sua história traz consigo as marcas da dependência e do subdesenvolvimento que tomou as terras, águas e demais bens e recursos naturais de quem trabalha e os concentrou nas mãos de uma elite anti-povo, antinacional, racista e misógina, a exemplo da que nas últimas eleições ascendeu ao poder. A captura da renda da terra/natureza e do trabalho do povo brasileiro ao menor custo possível, levada a cabo por meios expropriatórios e genocidas, demonstram a superexploração a que estamos submetidos. A questão da mineração remete à Questão Nacional, que no Brasil necessariamente passará pela Questão Agrária. A democratização e a retomada do controle popular da terra/natureza, imprescindíveis a uma contraposição efetiva em relação à mineração tal como se reproduz atualmente no Brasil, necessariamente passa por uma reforma agrária ampla, que inclui para além dos importantes assentamentos convencionais, a titulação dos territórios quilombolas e de povos e comunidades tradicionais, a demarcação das terras indígenas, a criação de reservas extrativistas, a delimitação dos ritmos de exploração dos recursos minerais e outros mecanismos que garantam o direito territorial aos povos do campo.
A dependência econômica da mineração em Minas Gerais e outras regiões do país acabam por criar horizontes cinzentos, o que dificulta a projeção de cenários municipais e comunitários que não partam da presença hegemônica das atividades minerárias. Portanto, é urgente que edifiquemos alternativas econômicas aos projetos minerários a partir da comunidade, da solidariedade e da sustentabilidade ecológica.
Aos atingidos pelo crime da Samarco, nem um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!

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