A classe trabalhadora brasileira e suas formas de manifestação política em perspectiva histórica

Por Alisson Carvalho

PARTE I – Da vida comunitária ao conservadorismo

Falar de classe trabalhadora hoje é praticamente uma abstração. Difícil enxergar, à olho nu, alguma unidade em todos aqueles que recebem salário para sobreviver. No entanto, no decorrer da história era senso comum qualificar os trabalhadores enquanto classe e identifica-los enquanto tal não era muito difícil: além de trabalharem em ocupações de qualidade parecida, viviam no mesmo bairro, frequentavam os mesmos lugares e vestiam o mesmo tipo de roupa.  Tanto a autoidentificação como a identificação pelas classes mais favorecidas era natural.

Em sua tese de doutorado Cultura Popular e Cultura Política no Após-Guerra: Redemocratização, Populismo e Desenvolvimentismo no Bairro da Mooca 1942-1973, Duarte (2002) se propôs a analisar a organização política dos moradores da Mooca a partir de entrevistas com moradores do Bairro da Mooca e assim nos dá elementos empíricos que nos permite estabelecer algumas mediações importantes para fazermos uma primeira aproximação ao tema “trabalho e manifestação política no Brasil”.

A Mooca era composta por vários imigrantes: italianos, lituânios, espanhóis, húngaros, dentre outros. Naquela época ainda não era conhecido como um “bairro tipicamente italiano”, como é hoje. Era, isso sim, um bairro tipicamente operário: a maior parte de seus moradores eram trabalhadores das indústrias nascentes da cidade de São Paulo, sendo que muitas delas ficavam na própria Mooca.

Apesar da conquista dos direitos trabalhistas expressos na CLT – oriunda de uma longa luta operária desde do final da década de 1910 –, a situação da classe trabalhadora brasileira não era nada boa. No período de guerra, a carestia tomava conta dos produtos necessários à subsistência dos trabalhadores e, justificado por um esforço de guerra, os trabalhadores não podiam reivindicar aumentos salariais (a média salarial mensal dos operários da Mooca era de cerca de Cr$ 650,00) e eram obrigados a trabalhar mais do que oito horas. Havia até mesmo fiscalização militar dentro das fábricas e o direito à manifestação era restringido.

Além das dificuldades no chão de fábrica, o reduto desses trabalhadores estudados por Duarte, a Mooca, ficava em uma região periférica da cidade, onde não havia saneamento básico, faltava escola para as crianças, água e segundo um censo da época 85% das habitações eram consideradas ruins, sendo que várias delas eram cortiços. Em virtude das dificuldades vividas, na transição do Estado Novo para o período de instituições políticas mais liberais (1945-1964), houve uma série de greves, passeatas das Donas de Casa contra a fome e reinvindicações para melhorias nos bairros periféricos.

O principal partido com influência sobre a classe trabalhadora no imediato pós-guerra era o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que ascendia rapidamente com sua legalização. Naquele momento, os comunistas acreditavam que era necessário construir uma relação com os trabalhadores que fosse além da organização sindical e partidária.

Com esse intuito, foram criados os chamados Comitês Democráticos Populares (CDPs) nos bairros populares, que eram espaços organizados com diversas atividades como alfabetização de adultos, corte e costura para as mulheres, organização de bailes, dentre outras coisas. Além dessas diversas atividades, o que mais atraia os moradores do bairro aos CDPs eram reuniões em que se discutiam os problemas do bairro. Os Comitês serviam, assim, de espaço de manifestação política dos operários do bairro, se tornando meios de educação para ação política, ocupando o vazio dos inexistentes ou insuficientes canais institucionais. Os Comitês que enfatizavam os pequenos problemas do bairro, mais do que a grande política, eram os que mais cresciam.

No sentido de também intervir na vida do bairro e disputar o espaço que vinha sendo ocupado pelos comunistas, os católicos também organizaram espaços do tipo. Os Círculos Operários Cristãos ofereciam coisas como assessoramento jurídico e médico, assistência e amparo, seções de cinema e sorteios para atrair gente. No entanto, o que mais atraia os moradores era também as discussões sobre as condições gerais do bairro. Apesar do assistencialismo ser a mola propulsora, uma Ata da diretoria do Círculo de Vila Prudente, bairro próximo à Mooca, dizia que o objetivo dos círculos era a “arregimentação e formação social e moral da classe operária, ensinando-lhe a ocupar sua posição de responsabilidade para que haja o equilíbrio necessário entre todas as classes sociais”.

Na perspectiva do Círculo, procurava-se redefinir a solidariedade de classe, base da atuação dos comunistas, em termos cristãos: o cristão deveria preceder o operário. Ao contrário dos Comitês, não havia, por exemplo, operário nas diretorias: era uma solidariedade vertical que se deveria respeitar a hierarquia da Igreja. A solidariedade cristã procurava harmonizar os interesses das classes trabalhadores com as classes capitalistas com base em uma moral que condenava tanto o excesso dos patrões quanto dos trabalhadores. Tudo isso imbuído de um forte discurso anticomunista.

Independente das diferenças ideológicas dessas organizações comunitárias, o eixo de atuação de ambos – e o que garantia a adesão da população – era a melhoria das condições de vida do bairro, de sobrevivência, da experiência fabril, da partilha de dificuldades semelhantes, como transporte, eletricidade, lazer, moradia e saneamento. Tais problemas comuns colocaram em segundo plano as opções doutrinárias e permitiram que os participantes dos CDPs e dos Círculos encaminhassem lutas em comum. Assim, no olhar do operário morador da Mooca era perfeitamente possível combinar o catolicismo com o comunismo, porque ambos apoiavam os trabalhadores em sua busca por recursos e meios para melhorar de vida. A vida comunitária do bairro ampliou-se consideravelmente e espraiava-se para as festas, os clubes de futebol, etc. conforme o depoimento do operário João Louzada:

“E aí discutia os problemas do bairro… A própria festa ela se encarregava de mobilizar o povo para discutir os problemas do bairro. Porque na festa você parava e falava: precisamos organizar. Por isso, as Sociedades Amigos de Bairro, quando o partido foi cassado, foram criadas com essa experiência e eram legalizadas. O interesse era do coletivo. Por exemplo, aqui nesse pedaço, além de pertencer à sociedade eu organizei clubes esportivos de futebol, clube de dança, seresta, excursão, tudo que é festa…”.

A ascensão da classe trabalhadora nos bairros periféricos logo começou a incomodar o poder público no período do Governo Dutra. Em um contexto de Guerra Fria em que o Estado brasileiro procurava inserir-se geopoliticamente no guarda-chuva dos Estados Unidos, a reação à organização da classe trabalhadora foi justificada para evitar o perigo comunista que vinha de Moscou e que se infiltrava no meio da classe trabalhadora brasileira. Em 1947, como ressaltou João Louzada, foi cassado o registro do PCB, houve o fechamento da Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), de várias Uniões Sindicais e dos 944 sindicatos existentes, 143 foram extintos. A polícia invadia e depredava os CDPs e, segundo depoimentos, até mesmo baile de operários: em uma ocasião policiais invadiram um baile na Mooca, depredaram tudo, beberam e comeram coisas da festa e depois justificaram a esbórnia falando que eram bailes como aqueles que brotavam comunistas.

Nas fábricas, com a repressão os patrões voltaram a tratar o trabalhador em “rédeas curtas”. O operário Miguel Geres, por exemplo, ficou detido nove dias no DOPS por pedir aumento de salário. Se o operário faltasse ou chegasse quinze minutos atrasado, perdia direito a aumento devido à chamada cláusula de assiduidade total. Conforme o operário Isodoro Del Vecchio: “qualquer coisa que a gente fosse pedir já era chamado de comunista, teve gente presa e tal, aí o pessoal desanimou”.

A situação trabalhista, tanto no bairro como nas fábricas atingiram níveis piores que na época de guerra. Além de justificar a repressão devido o fantasma do comunismo, o presidente do sindicato patronal dos industriais de São Paulo, a FIESP, “atacara a onda de greves dizendo que os operários não viviam melhor porque torravam seu dinheiro nas sessões de luxo dos cinemas ou gastando em restaurantes chiques, com bebidas caras e nos campos de futebol”. Essa não era, de fato, a realidade dos trabalhadores. Para se ter uma ideia do nível baixo de subsistência que o salário que ganhavam permitia, o operário Francisco Martins disse em entrevista que nunca havia entrado em um cinema e só tinha bebido três cervejas na vida.

Foi dos escombros do agora ilegal PCB, da moralização da visão econômica dos operários a partir da interferência Católica e da fraqueza do PTB em São Paulo que surgiram os políticos chamados de populistas, como Jânio Quadros. Seu sucesso no bairro da Mooca deveu-se a sua capacidade de vincular-se às organizações do bairro e encampar suas demandas, junto a um discurso moralista parecido com o da Igreja Católica. Pioneiramente, Jânio, ao visitar os bairros periféricos, fazer comícios e conhecer aqueles problemas pessoalmente absorvia como pauta política o que antes era ignorado. A exposição desses problemas e a utilização política deles por políticos como Jânio só foi possível com a organização prévia dos trabalhadores e a criação de consciência que a solução dos problemas do bairro eram direitos do trabalhador.

Dos antigos currais eleitorais, em que o voto era exigido à força, ao período do Estado Novo sem eleições diretas, a relação de “favores” e “gratidão” nos votos com esses políticos era o tipo de relação possível de conquista de melhorias para o bairro da Mooca na estrita democracia que se erguia no pós-guerra. Sendo assim, o sucesso dos políticos “populistas” na Mooca não esteve, como ponto de partida, no carisma e em relações estritamente personalistas, mas sim na capacidade desses políticos de se associarem às organizações existentes criadas pelos próprios trabalhadores [1].

Por outro lado, percebendo o bairro como “unidade política”, o janismo inicia no Brasil uma transição que poria em marcha uma diminuição da identidade classista do voto popular. Até então a associação com o getulismo, primeiro movimento político do Brasil a estabelecer relações políticas mais profundas com os trabalhadores, tinha um caráter de classe, embora muitas vezes paternalista. Naquela época era difícil para os trabalhadores votarem em políticos de um partido de direita como os antigos liberais da UDN, considerado tradicionalmente um partido que representava os interesses dos ricos. Sobre os pouquíssimos eleitores da UDN no bairro da Mooca, o operário Isodoro Del Vecchio disse:

“Eram… (hesitando) Eram aqueles que por alguma questão cultural não gostavam de se misturar com os pobres. Eram os engomadinhos. Na prática, não tinha diferença nenhuma. Não tinha diferença porque imperava a vaidade com todos”.

Esse foi o quadro do imediato pós-guerra até meados dos anos 1950. Como explicar, porém, que depois de um novo período ditatorial, de 1964 a 1985, o bairro da Mooca tenha emergido com um dos principais redutos eleitorais da direita em São Paulo?

Percebemos até agora um desenvolvimento de uma vida comunitária e de busca pela solução coletiva aos problemas de cada um, dado o sentimento de pertencimento à uma condição comum: a de classe. Apesar de moradores de diversas origens étnicas, a condição social e cultural de cada família não criava conflitos, pois havia uma certa equivalência de status. Aliás, a partir do trabalho e das melhorias no bairro boa parte dos moradores ascendiam, com novos empregos e melhor qualidade de vida, à condição de classe média. Tudo isso passou a estar ameaçado com a chegada de novos imigrantes de diversos lugares do próprio país, sendo os mais estigmatizados os nordestinos. A esse respeito, o imigrante europeu e morador da Mooca Julius Meksenas disse:

“em 50/54 começou a se instalar a indústria automobilística e aí começou a vir os nordestinos. Eu, quando trabalhava numa fábrica lá… E o pessoal não gostava deles, porque eles eram rudes, também vieram de um ambiente rude, tratados como bicho, né! Os do campo eram diferentes, não eram tão violentos, agressivos. Os da cidade, qualquer coisinha puxavam a faca, tudo isso e aquilo, mas isso é devido ao modo de vida que eles levavam lá, porque lá o coronel fazia o que queria, era uma ditadura (…) ainda era fácil de encontrar trabalho, mesmo com a onda de nordestinos, piorou para os motoristas, porque o sonho dos nordestinos era ser motorista (imita o sotaque nordestino) e a mão-de-obra caiu de preço de maneira assustadora, e havia essa rivalidade, esse preconceito mesmo, e era um grande preconceito que eles sofriam. Quer dizer que o preto paulista que naquela época, década de 30/40/50, ele era arruaceiro de bar, ladrão de galinha, virou santo e a maior má fama ficou com o nordestino”

Aquela comunidade em que se procurava resolver seus problemas coletivamente não pertencia aos nordestinos. Era como se eles, assim como os negros, pertencessem à outra sociedade, com um patamar inferior de sociabilidade e cultura. É contra esse inimigo em comum, que era responsável na percepção de muitas daquelas famílias pelo crescimento da mendingagem, da violência, do rebaixamento dos salários, da degradação do bairro e ameaça à melhoria de vida para as gerações futuras, que passariam estar as maiores preocupações políticas da classe trabalhadora do bairro. É nessa época que começa no bairro, antes plural e associado aos operários, a se perseguir a identidade de “bairro tipicamente italiano”. Da “Mooca vermelha”, como diziam os antigos militantes do PCB, à Mooca conservadora.

Para compreendermos o porquê desse restrito senso de comunidade dos moradores da Mooca, precisamos olhar, como fez Duarte, essas transformações sob o ângulo mais amplo do estilo de desenvolvimento do país.

Até certo ponto, as melhorias pareciam caminhar, apesar de períodos de maior repressão principalmente aos comunistas, de maneira linear: as indústrias se expandiam, os trabalhadores se organizavam e daí criavam condições para uma relação capital/trabalho mais equilibrada, com possibilidades de ascensão social e garantia de uma vida melhor para a nova geração. Era justamente essa a concepção de desenvolvimento daqueles trabalhadores: “para a maioria dos moradores da cidade, progresso, desenvolvimento e modernização eram sinônimos de melhores condições de vida, de asfalto, de trabalho, de luz elétrica, de salário e, principalmente, do reconhecimento dos seus direitos à cidade” (DUARTE, 2002, 234).

No entanto, o Brasil tem um passado escravocrata e de desigualdades regionais originárias de relações de produção vindas da colônia que não foram superadas. Ao contrário dos países mais desenvolvidos, como o próprio Estados Unidos, que fizeram a reforma agrária e liquidaram seu passado, no “modelo de desenvolvimento brasileiro” [2] o latifúndio continuou forte no país e jogou uma massa considerável de imigrantes para as poucas regiões do país que se industrializavam, em destaque o sudeste. Os nordestinos eram assim o sintoma mais evidente do subdesenvolvimento que insistia em se reproduzir e que acabava colocando em xeque a ascensão social da classe trabalhadora, graças ao entrelaçamento desse “Brasil arcaico” ao “Brasil moderno”. Em outras palavras, a migração em massa, a pauperização das cidades e o consequente crescimento da violência eram o sintoma mais nítido dos limites e das contradições do modelo de desenvolvimento que buscava modernizar o país sem ferir interesses arcaicos. Para os trabalhadores, porém, esses sintomas foram vistos como a causa dos problemas, o que levou a reações politicamente conservadoras.

Além disso, mesmo a organização dos trabalhadores inseridos no “Brasil moderno” e sua busca por direitos se mostrou contraditória ao modelo brasileiro de desenvolvimento. Desde JK aprofundou-se a concepção de que o desenvolvimento industrial seria a panaceia para todos os problemas que afligiam os trabalhadores, ou seja, os interesses dos grupos industriais se desdobravam automaticamente nos interesses do trabalhador. Nesta proposta de sociabilidade, o cidadão deveria ser antes de tudo como consumidor. Ao equivaler a melhoria das condições de vida ao acesso ao consumo, o que era visto como direito deveria ser fruto de conquistas pessoais.  Assim, as greves e a linguagem de direitos seriam distúrbios causados por políticos populistas demagogos. Dentro desta concepção de mundo, o embate político não surgia do conflito capital/trabalho e sim do conflito demagogos populistas/interesses nacionais.

Se em um primeiro momento esse conflito de noções de desenvolvimento se traduziu em conflitos políticos profundos que levaram ao golpe civil-militar de 1964, após o exílio, perseguimento e tortura de militantes comunistas, políticos populistas, setores da Igreja Católica, líderes de organizações de bairro, dentre outros opositores, a classe trabalhadora se submeteu a nova sociabilidade. O que passou a mover os trabalhadores foi a busca pelo fogão, geladeira, eletrodomésticos, carro financiado, casa própria, depois por um novo fogão, por uma nova geladeira, por um novo carro e assim sucessivamente. A busca por um melhor padrão de consumo era uma busca individual, da família, e com isso se fragmentou ainda mais a classe trabalhadora, dessa vez subjetivamente: quem tinha o consumo mais diferenciado passou a se achar melhor, mais diferente dos vizinhos e com menos interesses em comum. Estava plantando as sementes do conservadorismo na classe trabalhadora, principalmente em suas camadas médias.

À guia de conclusão, a grande contribuição a tese de Duarte é, a partir de um estudo de caso, mostrar que as manifestações políticas dos trabalhadores são erguidas em cima de complexas relações sociais com uma série de redes, teias, conexões, vínculos e nexos. Simplificar a ação do trabalhador, supondo que suas manifestações políticas se restringem a relações carismáticas e personalismos, é simplificar a própria realidade.

[1] Esta é, aliás, uma crítica à tese clássica do populismo de Weffort: “O populismo seria então a expressão de um conflito de classes no qual as classes populares adquiriram e desenvolveram formas de expressão e organização independentes e autônomas, que desencadearam movimentos cujo objetivo seria circunscrever, domesticar e limitar o alcance dessa ação” (DUARTE, 2002, p. 197).

[2] Ver Furtado, Celso. Análise do ‘modelo’ brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

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