Por Juliana Bavuzo
Os anúncios eram de chuvas melhores do que os dos últimos anos, que marcam a atual seca prolongada no semiárido brasileiro. Anúncios do guardar e esperançar. Também eram anúncios de menos gente indo pra colheita de café no sul de Minas. Anúncios de possibilidades de reorganizar os lugares dos fazeres.
Das andanças no sertão do sudoeste baiano.
A dinâmica de trabalho e as estratégias construídas pelas mulheres e homens que vivem e trabalham no campo para produzirem e reproduzirem suas vidas – e de milhões de outras pessoas – são atravessadas pelos lugares de seus fazeres. Os lugares onde essas atividades, agrícolas ou não, são realizadas podem dinamizar em diferentes arranjos a organização do trabalho de quem vive no campo no sentido de realizar anúncios. E, tão diversos como as atividades realizadas por quem vive no campo, são os territórios desses fazeres.
A colheita dos frutos do umbuzeiro é umas das atividades de manejo da agrobiodiversidade da caatinga realizada logo após período chuvoso no semiárido brasileiro. É quando a paisagem se transforma, passando do aspecto seco e carrasquento para um verde de dar gosto. O umbuzeiro, cantado nas músicas e citado na literatura que trata do sertão, é símbolo da caatinga e é presença certa e valorizada nos quintais. Além de sua ocorrência natural e na solidão dos pastos. Seu corte é proibido, mas não é somente a punição que motiva a sua conservação. Usada estrategicamente na resistência nas batalhas de Canudos, por guardar água em suas raízes durante o período seco, foi uma vantagem das e dos sertanejos/as frente ao desconhecimento dos soldados. Hoje, seu manejo rende muitos frutos – toneladas circulam regionalmente – e compõem um período econômico territorial das famílias que vivem no semiárido. Após as chuvas a colheita do umbu é parte considerável da dinâmica do trabalho no sertão e realizada em áreas para além da propriedade familiar. A colheita do umbu, para além da finalidade econômica, marca o trabalho de conservação da caatinga e amplia as potencialidades dos fazeres nesse território. Permite anúncios de arranjos de trabalho que são portadores de poder, autonomia e identidade.
Logo após a colheita do umbu, duas outras colheitas movimentam a dinâmica das famílias no semiárido baiano: as das roças de feijões, favas e legumes. Esses frutos têm como destino o estoque que garantirá a alimentação durante o período de trabalho na segunda colheita: a do café no sul de Minas Gerais.
Centenas de pessoas do território, muitas delas jovens, migram para outro território do fazer. Por até quatro meses, trabalham em uma atividade realizada também para além da propriedade familiar, mas dessa vez em um território que as possibilidades de anúncios perdem sua potência enquanto que e as condições para as denúncias crescem.
Mesmo que o fazer em ambos territórios seja o trabalho da colheita, o fruto das mesmas são distintos quanto à possibilidade de anúncios que evoquem poder, autonomia e identidade e fortaleçam de maneira positiva a integração dos fazeres agrícolas.
– Seu Zé de Lé vive na comunidade da Gameleira, em Anagé, sudoeste baiano. Esse ano não sabe se vai para a colheita do café. Conhecido pelo seu trabalho na produção do umbu gigante, está construindo a casa do filho no sítio. No trabalho de pedreiro cisterneiro, atividade entendida frequentemente como não agrícola e realizada também para além da propriedade, se apropriou, adaptou a tecnologia da cisterna de placas e construiu diversas delas em seu sítio para garantir o estoque de água das chuvas para a produção nos períodos secos. De uma muda de umbu gigante que cuidou por cinco anos até a primeira colheita, já reproduziu outras centenas através da técnica da enxertia. Apresenta com orgulho o umbuzeiro gigante original, seu viveiro de mudas, parte do pomar e os demais experimentos, incluindo árvores enxertadas que produzem até quatro tipos diferentes de frutas em um único pé. Anuncia os fazeres e valores do território quando é convidado como agricultor experimentador ao falar em outras comunidades e municípios das possibilidades do umbu. Em meio a tudo isso, ainda produz com sua família o roçado para alimentação sua e dos animais, cria abelhas, mulas, cabras e peixes e preside a associação comunitária. Desta forma também aproxima os diversos fazeres da agricultura ao território.
Para além do acesso à terra e aos bens comuns, a perspectiva dos territórios como espaços de constituição de poder, autonomia e integração sobre os fazeres, e construção das identidades, são definidores para a produção e reprodução da agricultura de base camponesa, familiar ou tradicional, assim como devem marcar a direção dos projeto de garantia de sua reprodução.
Dizer sobre e dar visibilidade aos diversos fazeres da agricultura em seus territórios, assim como a integração desses fazeres, é parte do anunciar não só em seu sentido de comunicação, mas diz também da faculdade de inovação e criação das pessoas que ao trabalho da agricultura se dedicam. E os anúncios, assim como as denúncias, são urgentes nesse momento.
Para conhecer mais anúncios de construção dos territórios do fazer a agricultura e o manejo do umbu, dê uma espiada: http://www.coopercuc.com.br/

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