Por Marianna Braghini

Mês passado o país foi surpreendido por uma greve de caminhoneiros, com duração de aproximadamente oito dias, enfrentou dias tempestivos com falta de combustível generalizada nos postos. Aeroportos cancelando voos, supermercados estabelecendo limite de unidades por item comprado, filas com horas de espera para abastecer o veículo, unidades escolares e faculdades cancelaram aulas, o transporte público foi reduzido. Basicamente o efeito que toda greve geral gostaria de atingir: o país parou.

O presente artigo não pretende entrar na discussão acerca da legitimidade enquanto greve se era locaute, se era um pouco dos dois. Enquanto a maior parte dos sindicatos se foca nos setores de produção, os caminhoneiros mostraram a efetividade de uma greve focada na circulação. Ninguém foi capaz de prever o que aconteceu no país nos dias da greve, ainda assim, os sucessivos aumentos no preço final dos combustíveis, fruto da desastrosa política de preços da Petrobrás pós-golpe de 2016, parece um pouco óbvio onde estaria a fagulha para o caos. Pudera, o poder é logístico.

Aqui serão apresentadas as principais motivações das greves no setor de transporte de passageiros e de cargas, captadas pelo Sistema de Acompanhamento de Greves do DIEESE, buscando explorar um pouco do que pensam os motoristas e trabalhadores do setor quando aderem uma paralisação, nos últimos cinco anos.

Como é possível observar no gráfico abaixo, o ano de 2013 registrou o maior número de greves no setor (33), seguido pelo total registrado em 2016 com a segunda maior quantidade (31). Por enquanto, no ano de 2018 já foi registrado o mesmo total de greves que o ano de 2015 apresentou (14 greves), no período total foram contabilizadas 144 greves e paralisações.

Fonte: Sistema de Acompanhamento de Greves – DIEESE

Segundo a captação do DIEESE, nesta série histórica, o principal motivo para as greves entre estes trabalhadores foi o descumprimento da legislação trabalhista no pagamento de Salários, férias e 13º salário, constituindo 42,4% das motivações de paralisação. É notável, inclusive, como esta motivação aumentou a partir de 2015.

O segundo maior motivo foi na temática de Alimentação, quando os trabalhadores exigem melhorias ou aumento nos benefícios relativos a vale alimentação, cesta básica etc, sendo 36,8% dos motivos das greves e paralisações. Aquelas por Reajuste salarial constituíram 22,9%.

Para além da pauta em torno das questões econômicas, chama atenção as greves que envolveram Assistência Médica, sendo 18,1% das motivações e Condições de trabalho e local de trabalho, sendo 17,4%. A tabela abaixo nos mostra com maiores detalhes as principais pautas reivindicadas anualmente.

Principais motivos de greves do Transporte Rodoviário, 2013 a 2018

Motivos

2013

2014

2015

2016

2017

2018

Total

%

Atraso de salário, férias, 13º

7

4

11

19

18

11

61

42,4

Alimentação

15

9

4

11

9

5

53

36,8

Reajuste salarial

12

9

1

8

3

0

33

22,9

Condições de trabalho

8

6

1

4

4

2

25

17,4

Assistência médica

8

4

1

6

4

3

26

18,1

Jornada de trabalho

7

7

1

4

1

0

20

13,9

PLR

3

6

0

4

1

0

14

9,7

Horas extras

5

3

1

2

0

0

11

7,6

Demissão

0

2

2

1

5

0

10

6,9

Depósito de FGTS

1

1

2

3

1

2

10

6,9

Manutenção de maquinário, EPI

0

1

1

5

2

1

10

6,9

Adicionais e gratificações

0

7

1

0

1

0

9

6,3

Outros

24

27

8

19

16

6

100

69,4

Total¹

33

26

14

31

26

14

144

Fonte: Sistema de Acompanhamento de Greves – DIEESE

Notas: ¹ O percentual excede 100% pois as greves podem conter mais de uma motivação registrada

A categoria “Outros” contém uma série de motivações, que não tinham relevância estatística frente as principais motivações expostas na tabela acima. Vale apontar que, dentre esta categoria, as motivações que mais apareceram no período foram Assédio moral, Condições de segurança e Piso salarial (6 greves registradas em cada uma).

Como consta no balanço de greves de 2016, produzido pelo próprio DIEESE, desde 2013 é possível perceber um aumento na adesão de profissões mais vulneráveis do mercado de trabalho nas greves e paralisações. O que vem sendo registrado nas demais greves, é a luta pelo mero cumprimento dos direitos dos trabalhadores, enquanto em 2012 o Atraso no pagamento de salários respondia por 24% das pautas das greves, em 2016 constituiu 45% do total.

Leave A Comment