O trabalhador organizado está de volta

Greves na General Motors, símbolo do mundo empresarial americano, são coisa séria. A paralisação na semana passada convocada pela central sindical United Auto Workers, a primeira em 12 anos, ganhou as manchetes mundiais e foi uma forte mensagem política sobre o ressurgimento das atividades do trabalho organizado nos Estados Unidos.

A recente greve dos pilotos da British Airways pode ter resultado em menos manchetes nos EUA (embora possivelmente tenha causado mais sofrimento aos consumidores, ao suspender 1,7 mil voos), mas tanto uma quanto a outra são reflexo de uma tendência com a qual as empresas internacionais deveriam começar a se acostumar: o renascimento do trabalho como força política e econômica.

Estamos encaminhados a afastar-nos da economia voltada às finanças e nos aproximar de uma mais voltada ao crescimento da renda. A mudança poderia tornar a economia dos EUA menos volátil e mais sólida, algo que tanto trabalhadores quanto executivos deveriam comemorar

Não é nada difícil adivinhar por que isso está acontecendo agora. Nos EUA, o trabalho organizado, que nas últimas décadas havia perdido força tanto em termos de atividade quanto de pessoas inscritas, está de volta porque grandes números de pessoas se cansaram da desigualdade cada vez maior, da insegurança da aposentadoria (menos da metade dos trabalhadores tem acesso a planos de pensão empresariais), do aumento dos custos de uma assistência médica relativamente ruim para os padrões internacionais e de uma sensação geral de vulnerabilidade econômica.

De acordo com estudo do Conselho do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), 40% dos americanos teriam que vender algo ou pedir dinheiro emprestado para pagar uma despesa emergencial de US$ 400. Um em cada cinco americanos conhece alguém viciado em opiáceos ou analgésicos. Não é surpresa que o Fed se preocupe em ter uma recuperação econômica que seja baseada no bem-estar dos consumidores.

Muitos vão argumentar que pilotos bem pagos de empresas aéreas e operários sindicalizados de montadoras automotivas têm pouco do que reclamar. Alguns poderiam até ver essas ações como o último suspiro de um movimento trabalhista arcaico que em grande medida foi varrido do mapa pela globalização, pela financeirização e, agora, pela economia digital. Mas elas estariam erradas.

Não são apenas trabalhadores brancos, velhos e em situação relativamente cômoda que estão entrando em greve. É a geração Y, mais jovem, multicultural, subempregada, que está por trás dos recentes aumentos no número de pessoas sindicalizadas. O “Lute por US$ 15”, um movimento para organizar trabalhadores de baixos salários de lanchonetes e varejistas, entre outros tipos de empresas, começou há sete anos em Nova York e se disseminou pelo país a ponto de tornar-se uma força política importante. O SEIU, um dos grupos trabalhistas por trás do movimento, convocou todos os candidatos do Partido Democrata na eleição de 2020 a defender uma plataforma de “sindicatos para todos” que torne mais fácil para as pessoas se organizarem nos setores de serviços e na área de empregos temporários.

O Freelancers Union, que representa profissionais de colarinho branco, como fotógrafos, escritores e desenhistas, também ganhou mais inscritos e influência política. Curiosamente, o movimento tem força tanto entre jovens conservadores quanto liberais; metade dos conservadores jovens da geração Y apoia os sindicatos, em comparação aos cerca de 25% dos republicanos idosos.

As mazelas econômicas da geração Y, que mora com os pais em proporção recorde em razão de dificuldades para arcar ao mesmo tempo com as dívidas estudantis e com a compra de uma casa, estão entre os muitos motivos para o apoio popular aos sindicatos ter chegado ao maior patamar em 15 anos. Dada a atual situação política e demográfica, é uma tendência que não vai perder força tão cedo.

O que isso significa para as empresas? No curto prazo, pressão sobre o lucro, em particular, no das empresas de tecnologia. Na Califórnia, a recente aprovação de uma lei tornando os trabalhadores de empregos temporários, como os motoristas de serviços por aplicativo, em funcionários em tempo integral poderia elevar em até 30% os custos de empresas como Uber e Lyft.

As empresas vão recorrer contra a lei, mas a impressão não é nada boa. Em nossa economia do “conhecimento”, uma parte enorme do valor da empresa está no capital humano. Isso significa que a satisfação e o bem-estar dos trabalhadores poderiam tornar-se uma questão a ser levada em conta pelos investidores.

No fim de 2018, o CtW Investment Group, que trabalha com fundos de pensão apoiados por sindicatos e tem ativos de mais de US$ 250 bilhões sob administração, começou a levantar preocupações quanto à gestão do capital humano em 30 companhias, entre elas várias gigantes do Vale do Silício, como Google e Uber.

O próprio mercado, por sua vez, pode fazer parte do trabalho de reconfigurar a dinâmica de poder entre capital e trabalho. Um dos motivos pelos quais acredito que ainda não vimos mais greves – dianto do fato de que a participação do trabalho no total nacional está em queda na maioria dos países do G-20 desde os anos 80 – é que os preços dos ativos subiram consideravelmente nesse período, compensando, para alguns, a estagnação dos salários.

Muitos americanos basearam seus cálculos de aposentadoria nos altos retornos do passado. Acredito, no entanto, que estamos diante de um importante ponto de inflexão e que os fundos de índices atrelados ao S&P 500, nos quais a maioria de nós aplicamos nossas poupanças ao longo da vida, vai ter nos próximos anos retornos muito mais baixos do que no passado.

Um mergulho no preço dos ativos e um período duradouro de baixos retornos levariam uma futura crise previdenciária ao topo da agenda política. Isso, por sua vez, nos obrigaria a, enfim, a ajustar as contas com um modelo econômico que colocou os interesses do capital acima dos interesses dos trabalhadores por um tempo longo demais. A criação de riqueza e a distribuição de riqueza, afinal, vêm em ciclos. Em algum momento, o pêndulo vai mudar de direção.

Eu argumentaria, dada a recente ação emergencial de liquidez do Fed, que estamos encaminhados a afastar-nos da economia voltada às finanças e a aproximar-nos de uma mais voltada ao crescimento da renda. É uma mudança que poderia tornar a economia dos EUA menos volátil e mais sólida. Isso é algo que tanto trabalhadores quanto executivos deveriam comemorar.

 

Por Rana Foroohar,  no jornal Valor Econômico

Rana Foroohar é editora do Financial Times em Nova Iork (Tradução de Sabino Ahunada)

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