‘Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados’ e memória das lutas populares

Por Bernardo Vaz do Beiras d’Águ* 

O Festival de Brasília de 2018 premiou Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados como melhor curta-metragem. No filme o coletivo de realizadores e o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), narram uma noite em que famílias ocupam um terreno para construir suas moradias.

O filme foi feito com sons e imagens de arquivo de três ocupações distintas e na tela criam um espaço único. Ainda que seja um arquivo recente, produzido de 2015 em diante, de alguma forma me fez pensar que há tempos podemos ver nas ocupações mãos com enxadas, bocas de lobo, panelas e câmeras. Na época do videocassete tinha o companheiro que filmava os casamentos da comunidade e levava uma Panasonic de ombro. Às vezes alguém conseguia até articular um/a profissional. E destas parcerias surgiram imagens símbolo de alguns Movimentos, como as fotografias de Sebastião Salgado das primeiras ocupações do MST no Oeste do Paraná.

Vinte anos depois, quem tem um telefone tem uma câmera. E alguns policiais tem ainda uma Go-Pro acoplada no capacete. Mas outras coisas também mudaram. A gente encontra mais jovens nas periferias cursando jornalismo, fotografia e cinema. E se intensificaram as oficinas de audiovisual nas áreas conquistadas pela luta popular. Essa mudança aproxima a jovem acampada da possibilidade de produzir um filme. E o cineasta que vai fazer uma oficina conhece de perto a luta e decide se vincular àquela organização.

Estar organizado em um movimento não é condição para fazer bons filmes. Há quem diga que pode ser um obstáculo. Mas, no caso do Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados foi fundamental. Por fazerem parte do Movimento, alguns realizadores carregaram o enxadão, a panela e a câmera. Assim, geraram e cuidaram de um acervo cotidiano do conflito por moradia em Belo Horizonte. Fruto de uma oficina e uma marcha, realizaram o curta Na Missão, com Kadu(2016). Antes, fizeram filmes para apoiar demandas como a construção da Creche Eliana Silva.

Em um filme como este da creche funciona construir o roteiro, filmar no sábado e editar no domingo. Mas nos outros casos são dias e anos de trabalho. Ocupam e junto registram as primeiras semanas da comunidade. Montam um vídeo para as redes sociais do Movimento e guardam o material. Filmam a assembleia, a festa de São João, cada conflito com a polícia. A cada descarga de material da câmera para os HD’s aumenta a angústia do que se tem guardado em casa.

E nem sempre essa angústia vira filme. Nas buscas por acervo que temos feito para o projeto Beiras d’Águas é frequente encontrar arquivos guardado há anos nas gavetas das organizações sociais, associações, grupos de pesquisa das universidades. Ou a notícia de registros que se perderam. É comum também o relato de comunidades e mobilizações que foram “filmados” e ninguém sabe dizer o que foi feito.

Por isso é preciso reconhecer o ato político que representa a decisão de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito de assistir pacientemente os arquivos dos últimos anos de um conflito. E debater o significado dessa opção para a construção da memória das lutas populares.

Além de entender como os realizadores lidaram com um material bruto composto essencialmente de corpos em uma luta em curso. Pessoas em movimento organizadas para ter mais poder sobre o destino dos seus corpos na cidade e na história. E com a vida em jogo.

Estive em uma das exibições do filme com presença da coordenação do MLB. E ali assisti um pouco dessa negociação estética e política entre um dos realizadores e o Movimento. E aprendi que sim, esse diálogo é possível. Mas é porque o corpo daquele cineasta também está na luta e em jogo. Esse diálogo sustenta o filme como ação política e aqui, pensando alto, como ação pedagógica para desibernar sons e imagens das cavernas.

 

*Bernardo Vaz é pesquisador e realizador em artes visuais, saúde ambiental e agroecologia.

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